No dia 28 de fevereiro estava marcado o despejo de 15 famílias na freguesia de Santa Iria de Azóia em Loures. Por conta da chuva que ocorreu por grande parte da manhã, o despejo não aconteceu. Os moradores, maioria imigrantes de São Tomé e Príncipe, vivem há mais de dois anos em condições precárias. Casas de madeira e lona em uma zona de terra entre uma estrada e um viaduto.
Antes das 09h da manhã de sexta-feira, a Unidade Popular esteve presente para travar a chegada dos tratores, o que não aconteceu. Debaixo de chuva, conversamos com os poucos moradores que não saíram para trabalhar ou levar as crianças na escola. Das mais de 60 pessoas que ali vivem, cerca de 30 são crianças, de bebês até os dez anos de idade. Na chuva, podemos ver a grande quantidade de pontos que alagavam criando um lamaçal onde uma das moradoras escorregou com uma panela de comida. Ratos também atravessavam de um lado para outro em busca de abrigo entre entulhos e matagais. Um dos moradores que conversamos explicou que parte dos que ali vivem trabalham na construção civil e só esperam o aval para que em menos de dois dias construam casas para todos. Ele também nos mostrou a horta que cultivavam milho, couve e temperos e demonstrou vontade de plantar um cacaueiro, típico de sua terra natal. Eles gostariam de produzir o próprio chocolate e talvez transformar o cultivo em fonte de renda para a comunidade.
O grupo de moradores, acompanhado pelo movimento Vida Justa, buscou conversar com o Presidente da Câmara Ricardo Leão, em um almoço onde cozinharam um prato típico, o Calulu. Entretanto, Leão ignorou o chamado e não respondeu às tentativas de contato. Sem aviso prévio do cancelamento do despejo, uma nova data foi estabelecida para dia 17 de março, deixando os moradores novamente em situação de suspense e ansiedade. Uma das poucas maneiras de apoio que a câmara proveu aos cidadãos imigrantes, foram prints de anúncios de sites imobiliários com casas para alugar. Obviamente, os valores são inacessíveis visto que Portugal tem se tornado um dos m2 mais caros da Europa. Ao mesmo tempo que o Governo português passa por uma grande crise com os supostos envolvimentos do Primeiro-Ministro, deputados e ministros envolvidos em imobiliárias e sendo proprietário de uma quantidade absurda de imóveis, enquanto aprovam leis que beneficiam a si próprios. Imigrantes trabalhadores buscam permissão para construir suas casas em terrenos que estão fora do radar da cobiça imobiliária. Esses mesmos trabalhadores que constroem prédios e casas que não podem pagar, mas que servem para a especulação, são deixados a margem e com o perigo de irem parar embaixo da ponte. 15 famílias, 60 pessoas e mais de 30 crianças. A Unidade Popular está junto com essas pessoas contra o despejo e contra a especulação imobiliária gerada pelo capital. Habitação é um direito de todos os trabalhadores, imigrantes ou não. Pelo fim do despejo na comunidade de Santa Iria de Azóia.