As luzes das lojas de luxo iluminam a avenida com tons dourados. Os intensos perfumes mudam a cada porta que passa. Ele caminha pela calçada observando os enfeites de Natal que aguardam o fim do outono, para enfim, dar novas cores ao ambiente. Um encontrão de ombros desperta-o do mundo dos sonhos. Ele faz uma reverência com a cabeça em sinal de desculpa. Recebe em troca, uma cara de asco do homem que segue de mãos dadas com a filha. Ele acelera o passo para completar a avenida. Os olhares não param de alcançá-lo. Uma senhora segura a bolsa com as duas mãos enquanto sai de uma loja de joias. Ele a contorna saindo do passeio, e só então opta por virar à esquerda e seguir pelas ruas inferiores.
Não era o caminho que mais o agrada à noite. Poucas lojas estão abertas nesse horário, apenas alguns restaurantes e tascas. A chance de surgirem bêbados inconvenientes é alta e ele quer, precisa, passar despercebido. Um homem com uniforme de cozinha que fuma na esquina, analisa-o dos pés à cabeça, como se julgasse a sua pessoa. Como se soubesse que estava incompleto. O rapaz verifica se o fecho da mala transversal está bem fechado, puxando-a para a frente de seu corpo. A rua termina numa curva para direita onde três policiais conversam em frente a uma viatura. Ele decide seguir pela longa escadaria e com o braço sobre a mala, passa próximo aos agentes.
Ao concluir metade da empreitada ouve um falar alto e vira-se, dois jovens bêbados iniciavam sua campanha pela escadaria. “Tás a olhar o que?”, disse um deles. O rapaz ignora, não compreende suas palavras, porém o tom é lhe familiar. Ele segue o caminho fitando a sua sombra na parede, atento caso outra surja logo atrás de si. Aumenta a velocidade do caminhar, saltando degraus. Sente o vento gelado na cabeça nua. “Então? Falei contigo!” continuou o alcoolizado jovem. Passos rápidos ecoam na escada e ele sente o suor na espinha congelar. Pensa em virar, mas antes que o fizesse, um som semelhante ao sino de igreja toma a noite, junto com a risada de um dos jovens. O rapaz coloca o pé no último lance de escada e aproveita para olhar o que sucedera. Um dos jovens está no chão, próximo ao corrimão, cobrindo o rosto. O companheiro está sentado no muro contorcendo-se de rir.
Ele segue cortando o caminho em zigue-zague pelas vielas estreitas para despistar outros jovens mal-intencionados. Só quando a risada se distancia pode, enfim, dar um meio sorriso. Não pelo acidente, mas pelo contágio da risada. Ele passa a manga da blusa na testa suada e pega o celular para verificar onde está. Ainda não conhece todos os pedaços da cidade, somente onde o aplicativo do trabalho já o levara. Em cima de uma moto era difícil observar as fachadas, decorações e avisos espalhados por ali. Tampouco adiantava, não compreende aquele alfabeto. Fora teu primo que lhe mostrou os cartazes que diziam que não eram bem-vindos naquela terra. Ele havia apenas decorado as zonas de perigo, onde podia ser descoberto e dependendo por quem, espancado, preso ou até morto.
Enquanto olha o mapa, não repara no vulto que passa ao seu lado e num reflexo assustado, quase derruba o celular no chão. O menino encapuzado com fones de ouvido nem sequer repara nele. Ele volta a atenção para a tela do celular que já não está no mesmo ponto. Depois do malabarismo para segurá-lo, tocou-o tantas vezes que abriu uma sequência de apps e selecionou uma foto para edição. Se depara com o sorriso de sua mãe, suas irmãs e irmãos. Revive a alegria daquele momento petrificado em imagem e lembra dos motivos de estar ali. Não naquela rua, naquele país, onde Deuses são oprimidos e os cheiros de temperos incomodam mais que os perfumes doces. O gosto da comida de sua mãe vem à sua boca. Recorda das piadas de seu irmão mais novo e das lições de vida que sua irmã mais velha lhe dava. Teria ficado ali, perdido em memórias, se não fosse o barulho de vidro rolando pela rua de paralelepípedos. Um homem andava acompanhado do cachorro.
O rapaz, exausto da tensão, foca em chegar em sua morada. A quadra onde vive sempre tem problemas de iluminação e junto com a dúzia de caixotes de lixo, formam o ambiente perfeito para ratos e baratas. Ele não gostava de viver ali, mas para conseguir enviar dinheiro para seus familiares, era necessário pagar um aluguel mais barato. Por ele vivia no meio do mato, com animais e terra para cuidar, essa era a vida que desejava. A primeira vez que recebeu o convite de seu primo, recusou. Viver na cidade, trabalhar à noite, “Isso não é vida pra ninguém” disse sua mãe completando seu raciocínio. “Um ano e você já está de volta. E nossos irmãos na escola”, disse a sábia irmã. Já se foram dois anos.
Quando enfim entra na sua rua, abre a mala, olha em volta e retira um pedaço de pano comprido da cor do pó de açafrão. Faz um nó em uma das pontas e com movimentos leves e rotineiros, enrola-o na cabeça até construir o seu turbante. Sente o abraço de sua mãe, o cheiro de seus temperos e o calor do seu país. Parado na escuridão de um dos postes quebrados, olha para a lua. Sente-se completo. Gritos e urros de alegria quebram o silêncio. Ele vai até à porta de sua residência e antes que possa abri-la, seu primo surge sorridente. “Acabámos de marcar!”, disse. Numa sala apertada, os sete moradores assistem na pequena tv a premier league de criquet, igual faziam em casa.