Crítica

Entre a Estética da Revolta e a Estratégia Revolucionária

Luan Almeida 18/07/2025

A isca da radicalidade

Nos discursos, comentários e conteúdos da esquerda revolucionária nas redes — principalmente entre os jovens — vem se tornando hegemônica uma ideia curiosa: a de que o fascismo cresce porque a esquerda é fraca, perdeu sua “potência” ou sua combatividade. À primeira vista, esse discurso parece realista. Ele soa como um diagnóstico duro e necessário, mas na prática revela-se uma explicação fácil, idealista, quase moralista. É um espantalho que desvia o foco da análise concreta da realidade e alimenta uma política baseada na performance e no ressentimento. Ora, mas não era isso que a própria esquerda criticava há poucos anos?

A história concreta e o falso discurso da fraqueza

Vamos começar esse tópico com algumas perguntas provocativas: Então quer dizer que o golpe de 1964 aconteceu porque a esquerda brasileira estava sem “potência”? Era covarde e fraca? O governo Jango não contava com propostas concretas como a reforma agrária e as reformas de base? Não havia um projeto real de educação nacional defendido por figuras como Darcy Ribeiro? Paulo Freire era um covarde sem proposta? O aumento do salário mínimo foi fantasia? Claro que não. Existia mobilização popular, existiam avanços concretos! E, ainda assim, a burguesia nacional e o imperialismo optaram pela via do golpe. O inimigo de classe não precisa de uma esquerda “fraca” para atacar, basta que ela ameace seus interesses de fato.

Quando voltamos o olhar para outros momentos históricos, vemos que mesmo em situações de sofrimento extremo, miséria, repressão e crise social profunda, isso não significou automaticamente o avanço da extrema-direita.

É preciso abandonar as explicações fáceis. O fascismo não é simplesmente “ódio”. O fascismo, como afirma Dimitrov, é a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, chauvinistas e imperialistas do capital financeiro. Ele não é um desvio moral ou cultural. É uma resposta consciente e estratégica da burguesia quando a dominação via democracia liberal se esgota. É a forma pela qual o capital reorganiza seu poder diante da crise estrutural, esmagando as organizações operárias, destruindo as liberdades conquistadas e aprofundando a exploração. 

Sendo assim, responsabilizar a esquerda por não ser “combativa o suficiente” é um argumento descolado da realidade objetiva e cria uma teoria que não leva em consideração a  conjuntura atual da luta de classes.

Querer argumentar que o fascismo atual cresce porque a esquerda “não é combativa” é uma análise incompleta e falha. O argumento se apresenta incoerente pois não toma como base a realidade concreta da situação atual das esquerdas mundialmente. Estamos passando por um momento histórico em que os aparatos de dominação do Estado estão nas mãos do imperialismo americano e das burguesias nacionais. Os grandes monopólios de distribuição e exibição dos cinemas, dos serviços de streaming, das redes sociais e etc; todos esses jogam em nossa cara propaganda da liberdade, do neoliberalismo.

A ofensiva neoliberal dos últimos 40 anos destruiu muitos dos pilares da organização operária que possibilitaram conquistas concretas no passado. Não temos mais sindicatos organizados, a divisão social do trabalho, a terceirização, a uberização, a destruição da unidade dos trabalhadores transformaram e desmobilizam a nossa luta — luta essa que já conquistou diversos direitos nos últimos 100 anos: diminuição das escalas de trabalho, aumento de salários, greves gerais, reformas agrárias e etc. Claro que tudo isso com o fator limitante da democracia-burguesa, mas que foram vitórias parciais, algumas que regrediram, porém foram possíveis e concretas!

A falta de avanço hoje não é falta de força. É visível que o discurso comunista enfrenta uma barreira gigantesca para chegar à classe trabalhadora. Nos falta uma agitação e propaganda articulada, real e concreta – assim como tem a direita – precisamos ir aos trabalhadores onde eles estão de verdade, não em redes sociais e ambientes controlados por algoritmos. A ilusão dos números digitais, do scroll infinito, não faz nosso trabalho avançar de forma revolucionária. Isso cria uma estrutura inicial, mas não gera uma revolução.

Sem esse enraizamento concreto na classe trabalhadora, qualquer discurso radical corre o risco de ser instrumentalizado e tornar-se apenas uma elaboração estética, vazia e sem refletir a realidade concreta dos trabalhadores.

É preciso voltar a articular o trabalho de massa nas ruas! Se não temos números, se não temos quadros, se não temos condições concretas de fazer ações radicais, como vamos ter força? Viraremos terroristas e vamos fazer guerrilhas abertas com menos de 200 pessoas? Vamos ser os mesmos terroristas criticados por Lenin, que ao invés de irem às ruas, irem às fábricas, irem aos sindicatos, irem às periferias, buscaram a classe trabalhadora. No fim do dia, essa tese me remete a um pensamento de: Vamos só pegar em armas porque precisamos ser radicais, mesmo que sem base e sem massa. 
 Querer insistir que estamos perdendo porque nos falta “potência” é cair num erro analítico. Ora, temos força — e ela se expressa justamente na continuidade da luta em condições extremamente adversas. Essa força se revela na presença crescente nas ruas, em novos filiados, novos quadros e novas organizações. Estamos reconstruindo nosso caminho revolucionário, guiados pela luz dos acúmulos dos nossos heróis, os camaradas que lutaram e formaram as bases do nosso avanço.

O discurso da figura de poder

Camaradas, usar o ressentimento social como combustível para um discurso moralista contra um “grupo inimigo” não é novo, nem revolucionário. Isso se parece, na forma, com o que a própria extrema-direita faz: canalizar o ódio para um inimigo genérico, sem tocar nas estruturas do capital. O que gera revolução não é o ódio, mas a luta organizada da classe trabalhadora, com estratégia, direção política e horizonte histórico claro.

A extrema-direita, por sua vez, se opõe radicalmente a qualquer projeto emancipador. Sua resposta ao sofrimento não é uma alternativa concreta, mas a canalização do sofrimento para o ódio, para o medo, para a construção de inimigos imaginários.

Historicamente, a direita captura discursos, manipula sentimentos difusos e usa os meios de comunicação de massa com enorme eficácia, pautando o debate institucional com seus próprios espantalhos. Assim, consegue produzir na população um sentimento artificial de medo, repulsa e caos. Medo dos “comunistas comedores de criancinhas”, dos “judeus ricos que dominam o mundo”, dos “globalistas que impõem a agenda do clima”, dos “imigrantes que vão substituir os brancos”, e das “pessoas trans que querem doutrinar nossas crianças”.

Esses delírios, repetidos à exaustão, fazem com que os militantes comunistas, ou mesmo os minimamente progressistas, sejam vistos como inimigos públicos, como pessoas que não merecem respeito, que não devem ser ouvidas, que devem ser silenciadas.

O que eu estou tentando dizer? A extrema-direita constrói uma identidade coletiva para si, quase religiosa, onde ela se vê como a única força moral legítima, a salvadora da civilização. Tudo o que está à esquerda disso é tratado como inumano, decadente, ameaçador e repugnante.

Quando a esquerda acredita que isso tudo é apenas uma reação ao sofrimento social, como se a extrema-direita fosse um “efeito colateral” da crise, ela abandona o materialismo! Ela adota uma visão idealista, que acha que a realidade é moldada apenas por ideias e pela moral, dando a entender que basta mudar o tom do discurso ou parecer mais forte que a direita.

A verdade é que o fascismo encontrará qualquer motivo, por mais abstrato, irracional ou fantasioso que seja, para mobilizar o ódio das massas. Acreditar que devemos responder a isso com mais estética, força simbólica ou agressividade de linguagem, é entrar no jogo com as regras do fascismo.

Sem organização concreta, sem centralismo democrático, sem unidade tática nas massas, o discurso radical vira performance — não preparação para a revolução socialista.

Radicalidade real exige projeto real

Essa captura da linguagem radical apenas por estética, sem projeto concreto por trás, é uma armadilha. No momento em que nós nos limitamos a atacar a esquerda liberal, sem apresentar um projeto palpável, enraizado nas massas, estamos apenas radicalizando o discurso sem oferecer horizonte.

A crítica ao reformismo é válida, mas ela deve ser acompanhada da construção de uma alternativa revolucionária concreta. Essa alternativa só se materializa com a consolidação de um partido comunista combativo, estruturado entre as massas, enraizado nas lutas populares, e orientado pela teoria marxista-leninista.

Fora disso, a radicalidade torna-se apenas um discurso de negação, incapaz de disputar o poder real. A história demonstra que o fascismo não se combate com vaia moral, nem com sectarismo retórico, mas com organização material da classe trabalhadora para a conquista do poder.

Se não temos força para abraçar essas pessoas, se não temos força para barrar um projeto fascista sequer pela via eleitoral, se não conseguimos organizar nossa militância para defender um projeto popular, se não temos força em sindicatos para educar as massas, se não temos projetos de base suficientes para propor alternativas reais aos trabalhadores — então o que, exatamente, estamos construindo? Qual projeto estamos defendendo?

Não estou dizendo que devemos abandonar a radicalidade, nem que devemos “pautar o governo” como linha estratégica. Estou dizendo que devemos atacar o governo pelo que ele faz e não simplesmente pelo que ele é!

Se houver uma pauta governista que seja boa para os trabalhadores, que contribua para o avanço da luta de classes, devemos defendê-la. Devemos disputar sua execução, colocarmo-nos como base crítica e ativa desse processo.

Se nosso único trabalho é atacar o governo porque ele não pauta todas as lutas — seja por falta de correlação de forças, seja por falta de “potência” — como vamos nos dirigir à militância no momento em que o fascismo tiver 48% dos votos e a frente ampla 51%, como aconteceu no Brasil?

O que estamos defendendo, afinal? Jogar o país em uma ditadura abertamente fascista só para provar que estávamos certos? É esse o horizonte estratégico de parte da esquerda radical?

Note: em nenhum momento estou dizendo que governos rebaixados, de conciliação, não devem ser criticados. Eles devem! Mas é preciso saber a diferença entre criticar às ações concretas de um governo e a reprodução de uma tática de desgaste equivocada. Para que servem os ataques sem um projeto alternativo concreto? Que no fim terá um projeto que baseia seu ataque na falta de força e no terreno da moralidade? Eu digo, isso é flertar abertamente com o fascismo e serve apenas para fortalecer esse campo.

Criar a ideia de que precisamos de figurar de força, figuras de autoridade, figuras que vão resolver tudo porque são potentes e rebaixar o rival político para um espaço que esse se torne deplorável, quando esse é apenas um social-democrata, é querer jogar usando as táticas e as práticas da direita radical.