O rádio
Eu estava ouvindo o rádio pela manhã quando começaram a anunciar as notícias sobre o genocídio que está acontecendo em Gaza. Falaram sobre Israel ter bombardeado mais um hospital e como suspeitavam que o hospital fosse aliado do Hamas. Mencionaram o número de mortos e feridos, a duração do conflito e como o governo europeu apelava por um cessar-fogo. E logo depois, no mesmo respiro, começaram a falar do FC Porto e do Benfica, dois times de futebol portugueses.
Fiquei confusa. Ainda estava tentando absorver a notícia sobre o bombardeio, e já me jogam futebol na cara — sem um intervalo, sem uma crítica, a notícia pela notícia. Guerra e Futebol se sobrepondo na formação do meu raciocínio.
Infelizmente ou felizmente, eu não sou o tipo de pessoa que consome informações sobre genocídio, fome, morte, e consegue seguir o dia como se não soubesse de nada disso. Queria eu ser mais como o treinador do FC Porto, que, ao ser apresentado como técnico do time, disse:
“Tenho a minha paz interior completamente garantida. Adormeço todos os dias sob o aplauso da minha consciência.”
Pra mim, não é bem assim. Eu me sinto inquieta e tenho uma grande necessidade de saber o que as pessoas pensam sobre esses assuntos.
A mulher egípcia
Eis que, já no trabalho, na hora do almoço, começo a conversar com uma colega de equipe que é egípcia. Ela ficou surpresa por eu apoiar o povo palestino. Disse que tinha medo de falar sobre o assunto, pois não sabia como as pessoas se sentiam a respeito disso em Portugal. Perguntou se eu não tinha medo de expor minhas opiniões tão abertamente. Eu disse que não, porque tinha certeza de que o povo palestino estava com muito mais medo do que eu. Ela sorriu e começou a me contar como os árabes têm uma certa aversão aos sionistas, e como essa acusação constante de antissemitismo é irritante, mentirosa e limita o debate.
Alguns outros colegas do nosso time se juntaram a nós e começaram a prestar atenção no que estávamos falando. Alguns disseram que consideram a situação um genocídio, mas que a culpa é toda dos EUA. Eu argumentei que a Europa também tem (e teve) um grande papel nisso, ao que eles, como bons europeus, negaram veementemente e ainda me acusaram de estar defendendo os Estados Unidos.
Essa minha colega falou que tem uma tia que é política e que, por vezes, precisa ir a Israel. Como os árabes são proibidos de entrar no país, ela tem que pedir várias autorizações do governo e passar pelos famosos checkpoints israelenses. O processo leva dias e é todo muito humilhante. Eu estava ouvindo tudo aquilo em choque. Só queria aprofundar mais a conversa, saber o que acontece pelos olhos de quem sofre essa opressão todos os dias. E qual não foi a minha surpresa quando o assunto foi brutalmente interrompido para falarem de futebol.
O Choque
Não é à toa que a situação do rádio se repetiu com os meus colegas de trabalho no almoço. As pessoas aprenderam que é assim que funciona: quando o tema é difícil, a gente fala de futebol. A gente muda de assunto e não pensa mais nisso. A gente não faz nada e espera que as coisas se resolvam. A gente debate com mais paixão a nova escalação do Corinthians do que as mortes em Gaza.
No livro Doutrina do Choque, Naomi Klein mostra como os governos de direita neoliberais instrumentalizaram o sentimento de desorientação que as pessoas sofrem após guerras, atentados, crises, desastres ambientais… para “suspenderem a democracia” e implementar suas políticas radicais. Ela observou que, depois de um momento de choque, as pessoas ficam mais suscetíveis a sugestões. Os grandes capitalistas tiram proveito desses momentos de crise para alterar radicalmente a seu favor a conjuntura política de nações inteiras.
Na nossa sociedade, vivemos em estado de choque constantemente — seja pelas notícias, pelo medo do desemprego, pela pressão do sistema capitalista, que diariamente suga até a última gota de sangue e suor das nossas vidas. E, para evitar que as pessoas pensem demais nos assuntos que realmente têm impacto em suas vidas, a grande mídia, controlada pelo capital, nos dá informações estruturadas de um jeito que dificulta a reflexão sobre o que acabamos de ouvir ou ver.
Eu não culpo as pessoas. Elas foram ensinadas a raciocinar desse jeito. E o papel do militante marxista-leninista é ajudar a classe trabalhadora a aprender a raciocinar de outro modo — com pensamento crítico, sob as lentes da luta de classes.
O futebol como aliado
Com essa exposição, não quero insinuar, de forma alguma, que o futebol é apenas um instrumento de alienação social. Temos o grande exemplo do time irlandês Bohemian FC, que, em parceria com a banda de rock Fontaines D.C., lançou uma camiseta em apoio ao povo palestino — camiseta essa que a ativista Greta Thunberg estava usando ao embarcar na flotilha com o objetivo de furar o cerco de Israel e levar ajuda humanitária a Gaza.
A camiseta possui a frase “Saoirse don Phalaistín” estampada, que significa “Palestina Livre” em irlandês. Além disso, 30% do lucro das vendas será revertido para instituições de ajuda médica ao povo palestino.
Esse é um grande exemplo de como o futebol é, sim, político. Tudo é. O futebol tem o poder de mover grandes massas em prol de um ideal comum. Tem o poder de conscientizar trabalhadores que, de outra forma, talvez nunca tivessem contato com a militância.
Não podemos esquecer que, em novembro de 2022, a chamada “tropa do fura-bloqueio”, que tinha como integrantes as torcidas organizadas Galoucura (Atlético-MG) e Gaviões da Fiel (Corinthians), desmobilizou os bloqueios de estradas feitos por fascistas que tentavam impedir a circulação de veículos com o objetivo de concretizar mais um golpe militar no Brasil, a mando do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O futebol é uma grande arma do poder popular, e é dever do militante impedir que ele se transforme de potência de mobilização em potência de alienação.
Viva o Socialismo, Viva a Unidade Popular!