Luta de classes

Mãos na parede, caro imigrante

Marcelo Gaspar 31/12/2024

Publicado no Público

A imagem de dezenas de imigrantes com as mãos na parede foi algo que chocou as redes em Portugal. Alguns se escandalizaram com o desrespeito, outros, com medo de que Portugal esteja, de fato, mais violento. Eu cresci na zona sul de São Paulo nos anos 90. Naquela época, o lugar mais perigoso do mundo segundo a ONU, e eu nunca fui assaltado lá. Entretanto, cheguei em Portugal em 2016 e meses depois, tentaram me assaltar no comboio. Então Lisboa é mais perigoso que São Paulo? Não, por mais que minha experiência reflita essa percepção, não é o que os dados apontam.

No capitalismo tardio tudo vira mercadoria, saúde, educação, segurança - e até você. E para reduzir os gastos do estado e a qualidade do bem-estar social, criando oportunidades para que um seleto grupo possa lucrar em cima desses produtos, é preciso mais que um culpado, é preciso de uma terapia de choque (Naomi Klein, Shock Doctrine). Aplicada em tempos de ditadura na América Latina, essa doutrina foi aprimorada até se tornar na guerra ao terror dos EUA, vigente até os dias de hoje. O conceito gira em criar uma tensão social baseada no medo e no pânico, para que em paralelo seja feito um desmonte dos serviços públicos sem que a população reaja.

Para que isso funcione, é preciso deixar a população desesperada e fragilizada. Então, junto com o desmonte é preciso “enxugar o estado”, reduzir os direitos trabalhistas, congelar o salário-mínimo, aumentar a inflação e facilitar a especulação em todos os setores. Para só então, investir em publicidades e matérias sobre segurança pública, desviando o foco para essa suposta emergência: “Olha quantas pessoas moram na rua, Lisboa tá perigosa”. Engana-se quem pensa que o objetivo é expulsar imigrantes. Eles são necessários como mão de obra barata — mesmo desempregados e vivendo na rua. Enquanto houver quem trabalhe “1€ à hora” e sem direitos, será difícil para o trabalhador português negociar melhores condições. E é o imigrante que ganha o título de ladrão de empregos e não o patrão como mão de vaca que foge de imposto.

O braço armado (PSP, GNR…) vem com essa função de criar medo e oprimir. O aumento da violência policial, faz com que o imigrante passe a ter medo da instituição. Ao mesmo tempo, o restante da população portuguesa (de maioria branca), passa a ver o imigrante e o negro como perigoso. Preconceito herdado dos tempos coloniais e alimentado pelos discursos racista nas redes sociais, matérias enviesadas que exploram apenas um lado e políticos de direita e extrema-direita populistas. Pronto, todos estamos com medo e um contra os outros. É crucial lembrar que o povo preto (imigrante ou não) ainda é o principal alvo desse tipo de política, como vimos recentemente com o caso de Odair Moniz. As ZUS (zonas urbanas sensíveis) nada mais são que pedaços dessa narrativa de violência e opressão do racismo estrutural enraizado em Portugal.

É importante ressaltar que essa “percepção de violência” não corresponde com a realidade. Portugal não está mais perigoso. Em matéria aqui do Público, Odemira, que possuem quase metade dos habitantes imigrantes, tem o índice de crime por habitante menor que Lisboa. Outro exemplo é a cidade do Porto, que de 2009 a 2019 teve o número de estrangeiros que ali residiam de 8809 para 14.558, quase o dobro, já os crimes, desceram de 17.383 para 15.422 registrados. Mesmo com números, o pânico moral instalado fez com que a violência contra imigrante, essa, sim, aumentasse, fruto da terapia de choque. No porto, encapuzados com bastões e tacos agrediram cerca de 15 trabalhadores imigrantes (de Bangladesh, Venezuela, Argélia) nas ruas. Alguns tiveram a sua casa invadida e chegaram a se jogar pela janela para não serem esfaqueados.

Criada essa fragilidade e tensão na sociedade, os governos e suas elites aproveitam a brecha para desmontar o que resta do bem-estar social até que tudo esteja privatizado, criando mais miséria e violência. Aumentando o investimento nas forças policiais e em publicidade. É uma bola de neve. Que benefício trouxe essas duas grandes ações na Martin Moniz que não deteve nem 10 pessoas, soltas logo depois, se não o aumento do pânico e do discurso racista e xenófobo em vigor.

O povo português tem a imigração na sua história – meu avô foi um deles - e sabe que as pessoas só deixam sua terra natal em busca de um lugar melhor. Eu, assim como muitos outros imigrantes estamos na rua, na luta por um SNS melhor, escolas de qualidade, casa e segurança, para todos. Vivemos aqui e deveríamos estar juntos nessa. Não nos encostem na parede.