Lucros milionários e péssimas condições de trabalho
Quando se conversa com os trabalhadores de call center em Portugal, diversas são as reclamações sobre as condições de trabalho, as exaustivas jornadas de 8 horas diárias que esgotam psicologicamente e a longo prazo fisicamente os trabalhadores, e que diferente do Brasil aqui não temos a obrigatoriedade de 6 horas diárias por não ser considerado um trabalho de risco, diversos casos de operadores e supervisores submetidos a trocas de setores não indicados em contrato e com ameaças de despedimento caso não aceite a troca, assédios por parte da coordenação com “punições” caso o operador não atinja as metas estipuladas, cobranças excessivas de vendas quando no contrato e em momento algum durante a formação é sequer informado que estamos sendo contratados para um setor onde vendas são obrigatórias, e até casos de operadores que trabalham em dois setores no mesmo dia, 4 horas de trabalho em um e 4 horas no outro, setores dos quais, obviamente não estão no contrato de trabalho e esses mesmos contratos são feitos a prazo, com horários desregulados e efetuados por empresas terceirizadas como RH+, Randstad, Manpower e Egor, que prestam serviços para empresas com lucros anuais milionários como a grande portuguesa do setor de telecomunicações NOS, que só no ano de 2024 teve um lucro de 273,1€ milhões, 50% a mais do que no ano de 2023. Em declaração ao Jornal Económico, Miguel Almeida, CEO da NOS disse: “Os resultados de 2024, ano em que celebramos o 10.º aniversário da NOS, foram os melhores de sempre da empresa, com crescimentos sólidos em receitas, EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e resultado líquido antes de efeitos extraordinários”, pois bem, para o Miguel as coisas estão as melhores de sempre, mas os trabalhadores que são explorados diariamente por sua empresa, não concordam com a afirmação do CEO.
Reivindicação e mobilização
Diante das terríveis circunstâncias, os trabalhadores juntamente com o sindicato Sinttav (Sindicato dos trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual), elaboraram um caderno de reivindicações para entregar a NOS, dentre as diversas reivindicações as principais eram aumento salarial para 910€ com progressão até 1.000€ durante o ano de 2024, diminuição da carga horária para 35 horas semanais sem perda de remuneração, espaço de tempo de 2 minutos entre uma chamada e outra, distinção entre as pausas e idas ao banheiro e acréscimo de 3 dias aos 22 dias úteis de férias anuais. O caderno foi elaborado em novembro de 2023, e até hoje os trabalhadores continuam sem resposta alguma da NOS. Em resposta à “não resposta” da empresa, foi organizada uma manifestação no dia 29 de novembro e uma plenária no dia 7 de novembro de 2024, onde os trabalhadores decidiram que entrariam em greve nos dias 25 e 29 de novembro; 2, 9 e 16 de dezembro e no período de 23 de dezembro a 5 de janeiro de 2025, entretanto não tiveram efeito. A NOS segue ignorando as reivindicações e submetendo a massa de trabalhadores a uma exploração contínua, com péssimas condições de trabalho, tanto materiais quanto contratuais, assédio moral, salários congelados no mínimo e gerando problemas psicológicos e físicos nos trabalhadores.
A luta e a organização dos trabalhadores é o caminho
Apesar de não ter tido tanto efeito, temos recentes casos de greves e organização dos trabalhadores que deram certo, como o caso dos trabalhadores da empresa Veolia, que presta serviços para a Super Bock, uma marca de cerveja portuguesa que pertence a empresa Super Bock Group, que leva o título de cerveja portuguesa mais vendida no mundo. Os trabalhadores da Veolia juntamente com o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias de Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (Sintab), decidiram em plenária realizada no dia 19 de dezembro que iriam realizar uma greve de 3 dias, com início no dia 6 de janeiro, devido a recusa da Veolia em se reunir com o Sintab para a discussão do caderno reivindicativo, onde reivindicavam o aumento salarial equivalente ao que era aplicado pela empresa em outras operações da Veolia, que chegava a ser 50% a mais comparado com os trabalhadores da Super Bock e a correção da escala de trabalho, em que estavam sendo submetidos a mais de 40 horas semanais de trabalho sem dias de descanso entre as mudanças de turno e sem pagar mais pelo trabalho suplementar, devido ao número insuficiente de trabalhadores contratados pela empresa. Resultado: antes mesmo da greve iniciar, o Sintab firmou um acordo com a Veolia e os trabalhadores conseguiram um aumento salarial de 270 a 295 euros e todos os trabalhadores que operam em regime de laboração contínua, ou seja, por turnos, receberão um subsídio de 100€ mensal. A única língua que os patrões e os capitalistas entendem é a da greve. Hoje serão greves em setores específicos, um dia será uma greve geral, e temos força para isso. Eles enriquecem as nossas custas, e a nossa resposta é a organização, a luta coletiva tem força e gera resultados, a curto prazo precisamos ter reivindicações que facilitem e tragam uma vida mais digna para a classe trabalhadora, mas sem nunca perder a visão classista e o nosso objetivo a longo prazo: a revolução socialista e a construção de uma nova sociedade, pondo fim a exploração do homem pelo homem.