No domingo, 18 de maio, ocorreram as eleições para o Parlamento Português. Sondagens e análises políticas buscaram “adivinhar” os diferentes resultados, mas poucas conseguiram chegar na realidade, o falhanço da esquerda. A extrema-direita, apesar de um empate técnico, tornou-se a segunda maior força ultrapassando o Partido Socialista (PS). Agora a direita, seus casos de corrupção e outros crimes, volta ao poder com dois terços das cadeiras parlamentares.
Nada de novo no novo Governo.
Os portugueses foram as urnas com uma das menores abstenções desde 1995 (35%), e deram seu recado. Pouco importa se Luís Montenegro beneficiou sua empresa e amigos usando o cargo de Primeiro-Ministro, pouco importa se deputados do Chega foram acusados desde furto de malas em aeroportos até exploração sexual de menores. São esses partidos e essas pessoas que metade dos eleitores escolheu para os representar. Agora é que veremos qual o real projeto que eles tem para o país.
Ventura, deu dicas, iniciou seu discurso atacando a sondagens, descredibilizar os media são ponto chave para o domínio da extrema-direita. Também fez brincadeira com o eleitor do chega que agrediu um presidente da junta no local de votação, “vocês ainda não viram nada”, disse o deputado. Estimular a violência de seus eleitores também segue a cartilha fascista. Já Luís, esperou a população ir dormir para se pronunciar quase pela uma da manhã. Ao lado de sua mãe, mulher e filhos, agora donos da empresa Spinumviva, que não deveria estar nos bastidores do governo, reafirmou a confiança dos portugueses em si. O discurso deixou claro que a agenda liberal seguirá no clichê tradicional. Crescer o bolo para depois dividir. Sem falar da defesa da cultura do mérito, “quem trabalha mais, quem produz mais, tem que receber a justa pelo seu desempenho”. Falácias contraditórias, já que quem faz o bolo crescer não fica com nenhuma fatia, talvez algumas migalhas. No fim, quando os jornalistas puderam fazer perguntas, as vaias deram o tom do que estará por vir. Mal dava para ouvi-las, o que ajudou Luís a se esquivar com seu tradicional sorriso de canto de boca.
O capitalismo tardio chegou para ficar em Portugal. As privatizações dos serviços públicos avançaram com rapidez assim como o desmonte das leis trabalhistas. Os imigrantes sofreram com o assédio nos seus trabalhos e na rua, fazendo com que sejam explorados mais facilmente e deportados assim que “produzirem” o máximo possível. Portugal, um dos países mais seguros da EU, verá o investimento nas forças policiais e no exército aumentar, não antes do número de sem-abrigos subir drasticamente. Afinal, o objetivo é crescer o bolo, um sinal verde para a especulação. Isso, contribui para as “sensações” de insegurança. Deixando um terreno fértil para o racismo, a lgbtfobia, misoginia e xenofobia crescerem. E aí que entra um ponto chave, a revisão da constituição. Tema levantado cada vez mais em programas políticos. Pontos finais dos artigos correm risco de se tornarem vírgulas com muitos “exceto em caso…”, preparando um ambiente abstrato de segurança social onde aqueles que podem gerar perigo a segurança do país fica a interpretação que convir melhor.
Mérito dos derrotados
Há vitórias em que o vitorioso merece os louros e há vitórias onde os derrotados é que ficam com o mérito de sua falha. Nessas eleições, esse foi o caso. Analistas dirão que a esquerda morreu, uma frase batida dos novos tempos. Mas no caso português, a esquerda se entregou ao abate. Primeiro é preciso retirar de vez o Partido Socialista desse grupo. Senão pelas quase duas décadas de governo em que não fez muito, como agravou, os problemas nos setores de habitação, saúde e trabalho. Ou pelos discursos de Pedro Nuno Santos sobre imigração, cada vez mais a direita – ele sendo a ala mais a esquerda do PS. Então, pela forma que Ricardo Leão, presidente da Câmara de Loures, tem tratado as ocupações em Santa Iria de Azoia e Talude. O terror psicológico, ameaças de despejo, retirada dos filhos de seus pais e a demolição da casa quando os mesmos estão trabalhando. Ações que nem um deputado do Chega conseguiria aplicar por conta de sua inaptidão. Dito isso, ficamos com Livre, o partido a esquerda mais ao centro, europeísta e muita das vezes conciliador, como um dos mais votados, com 6 cadeiras. Apesar das críticas, ainda assim, é um dos poucos que apresenta propostas com começo, meio e fim que apontam algum caminho. As vezes não muito assertivos, mas caminhos. Talvez por isso tenha crescido nas últimas duas eleições. Talvez, por ser novo e ainda não ter tido o desgaste que seus irmãos à esquerda tiveram ao longo de décadas de propostas que não saíram do lugar. O partido, muito focado no seu líder Rui Tavares, acaba recebendo uma aposta dos media e da esquerda “universitária” para substituir o que um dia foi o PS.
Já a CDU e o Bloco sobrevivem com a ajuda de aparelhos. Há que se analisar a tática de trazer a juventude para os partidos. O Bloco de Esquerda apostou em reviver seus antigos fundadores e fazer uma campanha digital onde a vergonha alheia era o motivo do compartilhamento, não o conteúdo. Mostrou desespero e não firmeza. Não é como se o partido não soubesse disso. Em um de seus eventos, uma militante apresentou uma questão para Louça sobre o grande número de participações digitais – na casa do milhar – e a participação pífia – nem cinco pessoas - em oficinas de cartazes. A falta de mobilização para tarefas simples por si só era um sinal de alerta, que acabou ignorado. A CDU não passa tanto por esse problema, mas ainda assim, tem pouco dessa juventude no seu corpo principal, deixando o partido velho e enferrujado de ideias. Paulo Raimundo pode ser um bom militante, mas é preciso questionar sua capacidade de insuflar as massas passando firmeza e força. A esquerda em Portugal falhou. E falhou, porque pouco sobrou de esquerda. O Bloco mal sabe qual linha política seguir, os (des)reformados fundadores não concordam entre si, Mortágua nunca foi uma unanimidade dentro do partido. Uma política de boa retórica, atualizada e disposta a lutar, acaba sendo um quadro desperdiçado. Um partido de esquerda que não tem um trilho para guiar, perde-se em si próprio e não avança. A CDU acaba cometendo os mesmos enganos. Abnegou de seus quadros revolucionários e foi ficando cada vez com a cara do sistema que um dia buscou derrotar. Monopolizou a luta com seus movimentos sociais buscando voto e não a consciência de classe. O ego cresceu dentro do partido, afastando aliados e novos militantes.
Uma nova receita de bolo
O reflexo disto agora se tornará claro. Ao invés de culpar os partidos por sua inaptidão em empoderar as massas envolta de projetos que possam mudar o país, a população “a esquerda”, culpa o eleitor. Chama-o de burro, coloca todos aqueles que votaram a direita no mesmo saco dos fascistas que votaram no Chega. E nem todos que votaram no Chega são fascistas, que fique claro. É preciso uma análise profunda pra entender os motivos que levam a pessoal aos partidos de extrema-direita. Desespero, medo e frustração, combinados com uma alienação política é o elemento perfeito para apresentar uma opção diferente “de tudo que está ai”. Deixando um trabalho complexo de explicar que essa opção é mais do mesmo, sem a gravata da moderação. É papel dos partidos de esquerda barrar esse discurso que divide a classe trabalhadora explorada, mas, provavelmente não irá fazê-lo, porque assim teria que explicar-se para seus militantes o falhanço. É aqui que entra a famosa frase de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor.” O que nos sobra é aprender com a derrota. Resistir se torna fundamental, mas a resistência não é revolução. É preciso um projeto que tire a classe trabalhadora das mãos do fascismo e as faça parte da construção para o socialismo. Os partidos de esquerda e grande parte dos movimentos ao seu entorno tem feito um papel de mitigação de problemas e caridade. Apostam em eventos culturais, fundamentais para a sanidade do povo, mas sem discutir soluções que vão além do voto. Festas acabam, eleições passam e os problemas continuam aumentando. A esquerda precisa se reencontrar em si e com a população. Não podemos esperar que a situação piore para vir como salvador reconstruir ruínas. O jogo da democracia burguesa não foi feito para nós participarmos, mas para nos conter. António Costa teve o governo derrubado porque seu nome apareceu em uma investigação. Luís teve seu nome, apelido e contas expostas. Deputados do Chega tiveram vídeos e mensagens pessoais os denunciando. Todos estão de volta.
A esquerda, seus partidos e suas lideranças precisam puxar a luta contra o retrocesso, mas antes, tem que ter consciência pelo que temos que lutar. Se o foco for aumentar 10, 20, 30 cadeiras no parlamento, estamos fadados a esse mesmo fracasso. Se buscarmos a união com os trabalhadores portugueses, racializados e imigrantes. Ouvirmos seus anseios e juntos construirmos o poder popular, sem egocentrismo, sem divisões, com unidade e luta, alcançaremos a vitória. As pessoas precisam de casa, de trabalhos regularizados e jornadas reduzidas, melhores salários, saúde pública e educação de qualidade. Não podemos mais nos contentar com migalhas. O tempo de lutar por vias burocráticas, enviando cartas para câmara, petições e atos simbólicos acabou. É hora de tomar as ruas, promover greves gerais. O bolo é nosso.