Introdução
Com o resultado das eleições em Portugal em 18 de maio, a proximidade do pleito no Brasil, o resultado recente nos Estados Unidos e o agravamento das guerras na Europa e os avanços do fascismo, vemos crescer um fenômeno curioso: o fortalecimento do discurso de esquerda radical nas redes sociais. Canais no YouTube, páginas no Instagram e perfis no TikTok acumulam visualizações e seguidores, mas esse engajamento virtual não se converte em votos nos parlamentos burgueses, participação nos partidos revolucionários de massa, auxílio nos trabalhos de base ou nas lutas sindicais concretas. É um ativismo ruidoso, e no fim do dia inofensivo. Do que adianta ter 400mil, 700mil ou 1 milhão de comunistas em discords e comentários de YouTube, se no fim eles não estão nas ruas, nas lutas e sindicatos? Precisamos romper essas barreiras.
A contradição se aprofunda quando observamos o comportamento desses chamados “militantes de internet”, muitos se apresentam como comunistas convictos, como se carregassem em si a consciência revolucionária das massas, apresentando as respostas corretas para todos os problemas — mas jamais saíram do virtual, nunca ouviram um trabalhador com humildade, nunca participaram de um processo coletivo real. A radicalização, nesse caso, se expressa de forma ingênua, sem estudo, sem prática, sem ligação com a materialidade dos trabalhadores. Devemos nos empenhar para superar as opressões de gênero e raça, combater os desvios burgueses e, sobretudo, nos forçar a superar nossas próprias contradições. E para isso, precisamos começar pela base: romper com a ilusão do virtual e retornar ao trabalho real.
Da ilusão do virtual ao trabalho real
Quando nos deparamos com discursos revolucionários na internet, frequentemente ouvimos palavras inflamadas, ideias à flor da pele, promessas mirabolantes — tudo apontando para uma ilusão perigosa: a de que bastaria fortalecer nosso discurso, denunciar o capitalismo aos quatro ventos e esperar que as massas, sozinhas, se levantem, procurem as organizações e se armem em favor da revolução.
É uma bela cena de filme de ação hollywoodiano: o pequeno grupo salvador da pátria, cercado de seus jovens radicais, chuta portas, metralha inimigos e derrota o sistema. Mas e quando o que falamos não chega nas massas ou elas não nos ouvem? Quando nossa visão de futuro não é compartilhada pela maioria dos trabalhadores? O que farão os revolucionários armados? Atirarão contra o povo? E diante das forças antirrevolucionárias? O que farão com o campesinato desorganizado, já que provavelmente sua propaganda só ecoou nas cidades e nos grandes centros urbanos?
Temos que entender que o trabalho revolucionário sério é muito mais do que isso — não se trata de gritar por gritar, mas de construir consciência. O problema começa quando se substitui a organização e a disciplina pela pressa e desorganização. Quando se troca a formação pela fantasia de uma revolta espontânea e mágica.
Essas perguntas não podem ser ignoradas. Não podemos rebaixar nosso discurso nem afrouxar nossa disciplina partidária, porque não controlamos o momento da revolução. Não escolhemos quando as condições objetivas e subjetivas se alinham para a insurreição popular. Não somos os donos da história. Não basta declarar: “Que se faça a revolta dos trabalhadores!” — temos que estar com as massas, ouvir as massas e guiar as massas, pois só assim saberemos reconhecer o momento em que a insurreição realmente brotará.
Para estar com as massas e ouvir as massas, é necessário um trabalho árduo, contínuo e organizado. Precisamos construir o trabalho de base não apenas em nossos locais de trabalho, mas em todos os espaços onde a classe trabalhadora vive, circula e resiste. Em tempos em que os sindicatos são violentamente atacados pelo Estado burguês, em que a divisão social do trabalho nos separa de nossos verdadeiros algozes — os burgueses monopolistas — e transforma os trabalhadores em “colaboradores”, “empreendedores de si mesmos”, figuras atomizadas e incapazes de se reconhecerem como iguais entre seus pares, precisamos redobrar nossos esforços. Vivemos sob contratos de trabalho precários, sem poder de negociação, lançados como presas ensanguentadas num mar infestado de tubarões.
É urgente preparar os trabalhadores, em todos os ambientes, para resistirem às opressões do capital: nas escolas, nos bairros, nos locais de lazer, nas fábricas e nos campos. Devemos construir espaços de convivência, lazer e escuta; transformar nossos territórios em ambientes onde as mulheres possam se reconhecer, se apoiar e ocupar com protagonismo — livres das opressões de gênero. Onde pessoas LGBTQIA+ possam existir com dignidade, segurança e orgulho, sem medo da violência cotidiana ou do silêncio cúmplice das instituições. Precisamos combater o olhar racista de uma sociedade que afaga os ricos e segrega os corpos negros, indígenas e periféricos. Lutar por uma reforma agrária popular, que entregue a terra a quem a trabalha e rompa com a lógica perversa que mantém nossos camponeses escravizados pelo rentismo e pela especulação fundiária.
Devemos desenvolver núcleos de estudo, movimentos de bairro, associações populares e frentes de luta que combatam essas formas de dominação não com respostas liberais, assistencialistas ou identitárias descoladas da luta de classes, mas a partir de uma perspectiva profundamente enraizada no marxismo-leninismo — como instrumento vivo da transformação radical da sociedade. Isso exige direção política firme, quadros preparados e um compromisso inabalável com a construção do poder popular.
É justamente diante dessa distância entre a ilusão revolucionária virtual e a complexidade do trabalho real que se revela a urgência da formação militante. Se queremos, de fato, preparar as condições para uma transformação radical da sociedade, não podemos confiar em impulsos espontâneos nem em discursos inflamados soltos no vento. O caminho da revolução exige quadros preparados, organizados e profundamente enraizados na realidade concreta do povo. E essa preparação não se faz de improviso: exige disciplina, estudo constante, crítica firme e prática revolucionária cotidiana. Por isso, é fundamental compreendermos que a base de qualquer ação transformadora está na formação rigorosa do militante.
“Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário”
Disciplina, estudo e crítica: os pilares para a formação de um militante
Nosso dever é estarmos sempre atentos, preparados e disciplinados.
Não somos dogmáticos nem rígidos demais, como nos acusam os que temem a organização revolucionária. Somos seguidores da disciplina marxista-leninista — que, longe de ser cega, se constrói na crítica, no estudo e na prática coletiva. Nossa firmeza não é obstáculo à crítica, mas seu terreno fértil! Devemos permanecer lutando diariamente para sermos ainda mais firmes na nossa formação.
Não podemos nos dar ao luxo de abaixar a cabeça diante de erros cometidos por nossos companheiros. Não podemos temer a crítica nem a autocrítica. Precisamos ser capazes de dizer: “Camarada, não sei responder sua pergunta agora, mas buscarei auxílio de um companheiro mais preparado.” Essa postura é revolucionária. Jamais devemos baixar a guarda diante das armadilhas do liberalismo burguês — sobretudo quando ele floresce no seio da nossa própria base. Nosso dever é estar atentos ao viés oportunista, ao reformismo e às práticas revisionistas travestidas de inovação — mas também às opressões estruturais que se reproduzem em nosso meio, como o machismo, o racismo e a LGBTfobia. Não basta avançar apenas a nível partidário, é preciso transformar profundamente nossas relações internas e pessoais.
Nosso trabalho como militantes é confiar em nossa linha partidária e, mais do que isso, nos aprofundar nela diariamente. Devemos abdicar dos velhos pensamentos e métodos herdados da tradição burguesa: o individualismo, o idealismo, o tecnocratismo, a burocracia vazia e o pseudo-conhecimento burguês travestido de ciência. Precisamos viver, estudar, ensinar e praticar a tradição marxista-leninista, adotar o centralismo democrático, exercitar o materialismo histórico-dialético e aprofundar nossa análise da realidade concreta.
Camaradas, é somente com conhecimento teórico e prático, com humildade revolucionária e firmeza de princípios, que poderemos avançar e, com legitimidade, nos chamar de comunistas — de vanguarda da revolução. Enquanto não compreendermos que é preciso sermos críticos com nossas próprias ações, intransigentes na defesa de nossos ideais e radicais em manter nossos valores, não poderemos ocupar, com responsabilidade, o posto de vanguarda de nenhuma revolução.
Não estou aqui para explicar o que é centralismo, nem para reinventar o materialismo histórico. Não sou um filósofo tentando criar novas teorias — já temos grande acúmulo teórico deixado por dirigentes e camaradas ao longo da história. Estou aqui para chamar atenção dos companheiros e irmãos de luta. Se não criarmos, entre nós, espaços de crítica mútua e de aprendizado coletivo, como poderemos liderar e criticar comportamentos que ferem nossa disciplina partidária?
Tomem isso como ponto central: se nós não nos debruçarmos sobre nossas ações cotidianas, não avançaremos — ou pior, avançaremos rumo a um caminho revisionista, estéril, apodrecido, que não dará frutos. Precisamos preparar o solo fértil para os novos militantes. Devemos ser as mãos que preparam a terra, que arrancam as ervas daninhas, que aguam e fertilizam. Para isso, precisamos estudar, nos aperfeiçoar, pedir ajuda e, principalmente, nos criticar.