Sobre a guerra Israel e Irã e os conflitos burgueses
Introdução
Com os recentes casos de violação sistemática de direitos humanos cometidos pelo Estado sionista de Israel contra a população palestina em Gaza, Cisjordânia, Líbano e outros territórios, é natural que cresça entre nossos camaradas, amigos e familiares uma revolta legítima diante de tal genocídio e das ações brutais de Israel.
Em meio a mais uma escalada do conflito, observamos a entrada mais ativa do Estado iraniano, o que tem gerado, em redes e grupos militantes, uma onda de apoio automático ao Irã como se ele representasse a libertação dos povos.
Companheiros, momentos como esses nos convidam a manter a firmeza teórica. Não podemos nos guiar por paixões ou impulsos morais, mas sim pela análise concreta das condições materiais, seguindo os ensinamentos e a prática do marxismo-leninismo.
Como apontou Lenin:
“fundamentalmente diferente da dos pacifistas (partidários e pregadores da paz) burgueses e dos anarquistas. Distinguimo-nos dos primeiros pelo facto de compreendermos a ligação inevitável das guerras com a luta de classes no interior do país, de compreendermos a impossibilidade de suprimir as guerras sem a supressão das classes e a edificação do socialismo”.
É preciso pontuar que o Irã não guiará o povo de Gaza à libertação, nem construirá uma república socialista. Muito menos derrotará e varrerá o capitalismo, pois ele próprio é um Estado capitalista, repressivo e teocrático, cuja ação regional visa ampliar sua influência, continuar sua exploração de classe e não libertar os povos.
Estamos diante de mais uma guerra entre dois Estados burgueses: um sionista e colonial, outro islâmico e reacionário. Nesse cenário, ambos são inimigos da autodeterminação dos povos, ambos são inimigos dos revolucionários, ambos são inimigos de classe.
Como escreveu Lenin:
“Imaginemos que um escravista que possui 100 escravos faz guerra a um escravista que possui 200 por uma partilha mais «justa» dos escravos. […] É precisamente assim que a atual burguesia, imperialista, mistifica os povos por meio da ideologia ‘nacional’ e do conceito de ‘defesa da pátria’ na presente guerra entre escravistas para consolidar e reforçar a escravidão.”
A guerra burguesa não é nossa guerra
Camaradas, não podemos nos deixar levar por paixões. Essa guerra, como já dissemos, não expressa o caráter de uma luta de libertação das classes oprimidas, mas sim a disputa entre duas potências capitalistas e reacionárias pela hegemonia regional.
Não devemos fechar os olhos para as opressões internas praticadas pelo regime iraniano. Nosso dever é lutar pela libertação da classe trabalhadora mundial, pela superação do nacionalismo burguês e do sectarismo religioso.
Não, o Irã não é nosso aliado. Mas isso não significa, jamais, defender Israel. Não podemos aceitar os discursos oportunistas de Estados que usam o sofrimento real dos povos como moeda de troca no seu jogo genocida da geopolítica burguesa.
Devemos apoiar o povo palestino, que resiste heroicamente ao colonialismo sionista.
Apoiamos incondicionalmente a resistência legítima do povo palestino contra o colonialismo sionista. Essa resistência é expressão concreta, firme e real do direito à autodeterminação e libertação nacional.
No entanto, é preciso deixar claro: o que assistimos hoje não é o Irã agindo pela solidariedade internacionalista nem é o apoio real à autodeterminação palestina. Trata-se da instrumentalização da luta de um povo oprimido para avançar um projeto regional de poder capitalista, reacionário e teocrático. O Estado iraniano usa a causa palestina como moeda de troca e bandeira ideológica para justificar seus próprios interesses na região. Ao fazer isso, coopta, limita e distorce a luta legítima dos palestinos, à reduzindo em mais um peão em seu xadrez burguês nefasto. Apoiar a Palestina significa apoiar seu povo, suas organizações populares e sua resistência própria! Não os jogos geopolíticos de potências que também oprimem seus trabalhadores.
Devemos apoiar os trabalhadores israelenses, que só serão livres ao destruir seu próprio Estado burguês e racista.
Devemos apoiar os trabalhadores e oprimidos iranianos, que enfrentam a repressão de uma teocracia capitalista, que explora e silencia em nome de seu “Deus”, o capital.
A classe operária de cada nação deve reconhecer como inimigo não o povo vizinho, mas a sua própria burguesia.
Como Lenin apontou parafraseando Marx e Engels:
“Não pode ser livre um povo que oprime outros povos” e “Não pode ser socialista um proletariado que admite a mínima violência da ‘sua’ nação sobre outras nações.”
Nenhuma das bandeiras burguesas nos representa
Por mais brutal que seja o genocídio sionista em Gaza e por mais justo que seja o sentimento de repulsa que ela provoca, essa guerra não é uma guerra popular e está longe de ser uma guerra libertadora.
Estamos diante de uma disputa entre burguesias nacionais, imperialistas ou regionais, pelo controle geopolítico de zonas de influência, recursos naturais e hegemonia militar. Enquanto os tanques israelenses esmagam corpos palestinos em Gaza, os drones iranianos não estão libertando ninguém. Estão apenas reafirmando a capacidade de seu Estado burguês-teocrático de disputar poder com os blocos imperialistas tradicionais.
O povo palestino, que resiste há mais de 75 anos, não será salvo nem pela OTAN, nem pelos oportunistas regionais. Sua libertação virá da luta organizada e consciente, que conecte a resistência nacional à transformação revolucionária do conjunto do Oriente Médio.
Do outro lado, o povo iraniano continua sendo reprimido brutalmente por seu próprio governo: mulheres, comunistas, trabalhadores, minorias étnicas e religiosas, todos são alvo do mesmo regime que se apresenta como “defensor dos oprimidos”.
E mesmo dentro de Israel, existem trabalhadores e jovens judeus oprimidos, explorados, arrastados para as fileiras do exército para matar ou morrer por interesses que não são os seus!
Não há libertação verdadeira quando a palavra de ordem é pronunciada por mãos que chicoteiam o próprio povo.
Lenin apontava:
“[…] a justificação por eles da guerra de pontos de vista libertadores burgueses, a admissão por eles da «defesa da pátria», a votação a favor dos créditos, a entrada nos ministérios, etc., etc., são uma traição directa ao socialismo, só explicável, como veremos adiante, pela vitória do oportunismo e da política operária nacional-liberal no seio da maioria dos partidos europeus[…]”
Internacionalismo proletário: única saída possível
A única saída possível para os povos oprimidos da região, sejam palestinos, judeus, iranianos, libaneses, iemenitas, curdos ou sírios, é o rompimento com suas próprias burguesias!
Romper com os generais, os banqueiros, os clérigos, os colonos e os tecnocratas. E levantar a bandeira da revolução socialista. Porque não haverá paz verdadeira enquanto o capitalismo existir!
Não haverá justiça verdadeira enquanto as classes dominantes usarem a guerra como política externa e a religião como algema interna!
Como apontou Lenin:
“O estado de espírito das massas a favor da paz exprime frequentemente o início de um protesto, da revolta e da consciência do caráter reacionário da guerra. Aproveitar esse estado de espírito é um dever de todos os sociais-democratas. Eles participam do modo mais ardente em todos os movimentos e em todas as manifestações neste terreno, mas não enganarão o povo admitindo a ideia de que, na ausência de um movimento revolucionário, é possível a paz sem anexações, sem opressão das nações, sem pilhagem, sem os germes de novas guerras entre os actuais governos e classes dominantes. Enganar assim o povo apenas faria o jogo da diplomacia secreta dos governos beligerantes e dos seus planos contra-revolucionários. Quem deseja uma paz sólida e democrática deve ser a favor da guerra civil contra os governos e a burguesia.”
Referencia:
https://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/guerra/index.html