No bairro do Talude cerca de três barracas caíram e meia dúzia perderam parcialmente o telhado. A igreja feita de chapa de aço, assim como as barracas, ficou completamente danificada. Felizmente ninguém ficou ferido. Um casal de brasileiros e seus dois filhos passaram a noite no carro. Josiane passou a noite com sua filha ouvindo uma pequena cachoeira que caia próximo ao fogão na parte em que o teto cedeu. Ana perdeu a casa, ela e as duas filhas foram passar a noite na casa de sua irmã após o aviso de tempestade no celular. Ela estava sentada no degrau, única parte feita de concreto, esperando que um dos doze homens que se juntaram para consertar a igreja fosse lhe dizer se conseguiria ou não construir outro barraco para ela. “Dessa vez menor, sai mais barato também”, disse ela. Já Antônio, levantava as paredes de metal e reforçava as vigas de madeira da casa de uma senhora que estava trabalhando. Os irmãos João e Vítor também levantavam outro barraco, seu antigo tinha sido derrubado na segunda, mas pela prefeitura.
O Presidente da Câmara membro do Partido Socialista (PS), que deveria ser, pelo menos, de centro-esquerda, caminha cada vez mais para o extremo oposto. Buscando voto dos extremistas nas eleições que acontecem no fim do ano. Rafael Leão pratica uma política de medo e repressão com as ocupações do município. Os moradores, grande parte de imigrantes de São Tomé, estão há mais de três anos em Portugal e saem para trabalhar com medo de suas casas serem derrubadas ao longo do expediente. Em alguns casos como o de Ana Paula, mãe solo, trabalhadora e grávida, ela não só foi despejada como corre o risco de perder a guarda dos filhos por não conseguir prover a estrutura necessária para criá-los. No bairro de Santa Iria de Azóia vivem mais de 25 crianças e ainda assim a Câmara faz diversas tentativas de demolição, só recuando na presença de câmeras que atrapalham a campanha.
Outra coisa caiu nesses últimos dias, não por conta de tratores e nem do vento, foi o Governo de Luís Montenegro. Entre uma Lei que mudou o regramento de terrenos rurais para habitação, contribuindo ainda mais para especulação e uma empresa de gestão imobiliária e consultoria que faturou mais de 700 mil euros em 3 anos, estava o Primeiro-Ministro e sua família. Agora serão duas eleições em 2025. Ano em que as rendas já aumentaram 2,16%, o dobro que anos anteriores, fazendo com que mais famílias procurem as periferias para montar seu barraco. No tempo que estive lá com os moradores, duas pessoas caminhavam para ver espaços no terreno. O motivo era o mesmo, vão aumentar a renda outra vez. “Agora vai passar os mil euros, um T1” disse Ruben, olhando pro lamaçal, a fiação elétrica rasteira e as chapas de aço, planejando os próximos passos de sua vida. Que muitos desenham como carregada de subsídios e privilégios.
Nesse ano de 2025 é preciso ficar atento com o aumento da violência daqueles que buscam votos dos extremistas e também com as promessas vazias dos ditos progressistas, mas essas, nem se quer tocam na situação precária do imigrante. A esquerda europeia no máximo ajuda a facilitar documentos para que se consiga trabalhar e descontar os impostos. De resto é mais do mesmo, privatizar e especular. E essa precarização e inflação dos preços seja de casa ou comida não afeta somente imigrantes e pessoas racializadas, mas todos aqueles que vivem do seu trabalho. Independente do grau de estudo, nacionalidade ou cor da pele. Obviamente que as minorias que são deixadas a margem passam pelos extremos, mas é preciso que todos trabalhadores lembre disso nas eleições e no dia a dia. Somente com a união, consciência dessas realidades e luta conjunta conseguiremos mudar essa situação que nos oprime e explora. Um mês antes de mais um 25 de Abril é preciso recordar seus valores. Por casa, comida e paz.